O que nos diz o Vasco Gaspar no prefácio deste livro?

Quando recebi o convite para escrever o prefácio deste livro, senti duas correntes a atravessar-me.
Uma, de gratidão e alegria; outra, de resistência.
Os autores contaram-me que o tinham escrito com apoio de Inteligência Artificial (IA) e, de imediato, lembrei-me de uma frase que tinha lido: "Porque razão vou investir tempo a ler algo que tu não investiste tempo a escrever?".
Mas, antes de fechar a porta, mergulhei mais fundo. Outra parte de mim lembrava: "Tu também usas IA no teu dia-a-dia para organizar ideias, rever conteúdos… Não estarás a ser um pouco hipócrita?".
A verdade é que a questão não é a tecnologia, mas a intenção e o propósito com que a usamos. Aqui, percebi que a IA esteve ao serviço de algo muito maior.
Para além disso, este livro não chega às minhas mãos por acaso, mas através da Paula e do Simão — pessoas cuja profundidade, altruísmo e forma de estar me inspiram. Pessoas boas, com um Coração gigante, cujo trabalho já tocou milhares. Ao reconhecer isto, senti o corpo relaxar e o coração abrir-se à possibilidade de aceitar o convite.
Ao mergulhar no texto, senti-me como uma criança a entrar num parque de diversões — não só me senti a conversar com os autores, mas também a conversar com algo maior, vivo, que se revelava através deles. Esta obra nasce de diálogos genuínos, que depois se tornaram um diálogo com a própria Vida, com a IA como aliada para ampliar e organizar. O resultado é um tecido rico, onde se entrelaçam ideias e inspirações de Otto Scharmer, Gabor Maté, Eckhart Tolle, Joanna Macy, Kristin Neff, Marshall Rosenberg, Margaret Wheatley, Frederic Laloux, Charles Eisenstein, entre tantos outros.Vivemos tempos extraordinários — e não apenas no sentido bonito da palavra. Enfrentamos crises ecológicas, sociais e espirituais à escala global. Ao mesmo tempo, assistimos à emergência de novas tecnologias que nos fazem cruzar fronteiras cujos impactos ainda não conhecemos — da inteligência artificial à manipulação genética, da computação quântica às armas autónomas, da nanotecnologia à geoengenharia.
Temos soluções técnicas para inúmeros problemas, mas a raiz é mais profunda: a desconexão — com o planeta e os sistemas de que fazemos parte, com os outros e com a comunidade à nossa volta e, sobretudo, connosco próprios.
Paradoxalmente, ferramentas que poderiam aproximar-nos, como a própria IA, acabam muitas vezes por isolar-nos e anestesiar-nos. E assim, é mais fácil preencher o vazio com distrações — redes sociais, consumo excessivo, álcool, pornografia, trabalho compulsivo — do que encarar a dor de ver o mundo tal como ele está.
Por onde começar, então?
Os autores respondem: precisamos de novos líderes.
E aqui, confesso, não gosto muito da palavra líder — tem demasiada bagagem e evoca muitas vezes a imagem do macho alfa, do CEO infalível, da autoconfiança arrogante. Mas o/a líder que este livro propõe é o oposto: começa por dentro, por dizer «não sei», por cultivar os seus diferentes domínios interiores (mindset, heartset, healthset, soulset, como os autores apontam).
É alguém que lidera pelo exemplo, alinhado consigo e com os seus valores, que escuta profundamente — a si, aos outros e ao mundo. Que segue a intuição como bússola, especialmente num mundo onde distinguir verdade de ficção é cada vez mais difícil.
Esta é a Liderança Evolucionária que a Paula e o Simão nos oferecem: uma liderança de dentro para fora, que não se impõe, mas convida; que não manipula, mas inspira; que não separa, mas une.
E aqui está a beleza: a grande transformação que o mundo precisa não começa com grandes gestos, mas com pequenos atos de consciência e coragem.
Como dizem os autores: «Começa contigo, aqui e agora. Começa connosco, juntos, a aprendermos como ser mais plenamente humanos nestes tempos extraordinários.»
Deixa ficar tudo o que não ressoar.
Passo a passo, organicamente, da mesma forma que o livro se descobriu a si próprio, quem sabe o que irás descobrir sobre ti através dele.
Se cada um de nós seguir esse movimento evolucionário interior, todos contribuiremos para um mundo muito mais bonito, que, cá dentro, sabemos ser possível.